Finanças de campo

DRE simples para prestador de serviços: modelo e exemplo (2026)

29 de setembro de 2026 9 min de leitura

Existe uma frase que todo contador de empresa de serviços já ouviu: "a gente faturou bem esse mês, mas não sei para onde foi o dinheiro". Ela aparece em empresa de limpeza com vinte contratos, em empresa de climatização com três equipes na rua e em dedetizadora que atende o bairro inteiro.

A resposta para essa pergunta tem nome e formato conhecidos: a DRE, Demonstração do Resultado do Exercício. Ela parece coisa de empresa grande, de balanço publicado em jornal, mas na versão simples é uma folha com quinze linhas que qualquer dono de empresa consegue montar e ler.

Este guia mostra a estrutura de uma DRE simples para prestador de serviços, explica o que entra em cada linha e traz um exemplo calculado com números realistas. No fim, você vai saber exatamente onde olhar quando o faturamento sobe e o lucro não acompanha.

O que é DRE e por que ela importa para quem presta serviço?

A DRE é um relatório que pega tudo o que a empresa faturou em um período e vai descontando, em ordem, tudo o que custou para gerar aquele faturamento. O que sobra no fim é o lucro, ou o prejuízo.

Para empresa de serviços ela é ainda mais importante do que para comércio, por um motivo simples: o principal custo é gente. Hora de técnico, deslocamento, retrabalho e tempo parado não aparecem na nota fiscal, mas aparecem na DRE. É ela que mostra se o problema está no preço, na operação ou na estrutura administrativa.

DRE não é fluxo de caixa: Essa confusão é a mais comum. O fluxo de caixa registra quando o dinheiro entra e sai da conta. A DRE registra quando a receita e o custo acontecem, independentemente de quando foram pagos. Esse critério tem nome técnico: regime de competência.

Na prática: se você executou um contrato de limpeza em setembro e o cliente só pagou em outubro, a receita entra na DRE de setembro e no caixa de outubro. Por isso uma empresa pode ter lucro na DRE e estar sem dinheiro na conta, ou o contrário. Os dois relatórios são necessários, e um não substitui o outro.

Qual a estrutura de uma DRE simples para empresa de serviços?

Esta é a estrutura que funciona para a maior parte das empresas de serviço de pequeno e médio porte. Ela é mais enxuta que a DRE contábil oficial, mas segue a mesma lógica.

Onde entram os impostos sobre o lucro? No Simples Nacional, o imposto de renda e a contribuição social já estão dentro do DAS, então não existe uma linha separada no fim. No Lucro Presumido e no Lucro Real existe uma linha de IRPJ e CSLL antes do lucro líquido. Se você não sabe em qual regime está, esse é o primeiro assunto para a próxima conversa com a contabilidade.

O cuidado com o anexo do Simples: Em empresa de serviços, o anexo do Simples muda a DRE de forma relevante. Serviços de limpeza e conservação, por exemplo, ficam no Anexo IV, em que a contribuição patronal ao INSS é recolhida fora do DAS. Nesse caso, esse valor precisa entrar no custo da mão de obra, senão a DRE fica bonita e errada.

Outras atividades de serviço ficam no Anexo III ou no Anexo V, conforme o Fator R: quando a folha de salários dos últimos doze meses representa 28% ou mais da receita bruta do mesmo período, a empresa é tributada pelo Anexo III, com alíquota inicial de 6%, em vez do Anexo V, que começa em 15,5% (Contabilizei: https://www.contabilizei.com.br/contabilidade-online/anexo-3-simples-nacional/). O enquadramento exato depende do CNAE e precisa ser confirmado com o contador.

  • Receita bruta de serviços: tudo o que foi faturado no período.
  • (-) Deduções: impostos sobre o faturamento (DAS no Simples Nacional, ou ISS, PIS e Cofins em outros regimes), cancelamentos e descontos concedidos.
  • (=) Receita líquida.
  • (-) Custo dos serviços prestados: mão de obra de campo com encargos, material e peças aplicados, deslocamento e serviços terceirizados.
  • (=) Lucro bruto, também chamado de margem de contribuição da operação.
  • (-) Despesas operacionais: equipe administrativa, pró-labore dos sócios, aluguel, contas fixas, contabilidade, sistemas, telefonia, marketing e comercial.
  • (=) Resultado operacional.
  • (-) Despesas financeiras: juros de empréstimo e capital de giro, tarifas bancárias, taxas de maquininha e de antecipação de recebíveis.
  • (+) Receitas financeiras: rendimento de aplicação, juros cobrados de clientes em atraso.
  • (=) Lucro líquido.

Exemplo de DRE simples, com números

Vamos montar a DRE de um mês de uma empresa fictícia de climatização e manutenção, com três equipes em campo e faturamento de R$ 120 mil. Os números são ilustrativos e servem para mostrar o método.

  • Receita bruta de serviços: R$ 120.000
  • (-) Simples Nacional, alíquota efetiva ilustrativa de 11%: R$ 13.200
  • (-) Descontos e cancelamentos: R$ 1.800
  • (=) Receita líquida: R$ 105.000
  • (-) Mão de obra de campo com encargos e benefícios: R$ 42.000
  • (-) Material e peças aplicados: R$ 14.000
  • (-) Deslocamento (combustível, manutenção de veículo, pedágio, estacionamento): R$ 7.500
  • (-) Serviços terceirizados: R$ 3.500
  • (=) Lucro bruto: R$ 38.000
  • (-) Equipe administrativa: R$ 12.000
  • (-) Pró-labore dos sócios: R$ 10.000
  • (-) Aluguel e contas fixas: R$ 4.500
  • (-) Contabilidade, sistemas e telefonia: R$ 2.800
  • (-) Marketing e comercial: R$ 3.200
  • (=) Resultado operacional: R$ 5.500
  • (-) Juros, tarifas e taxas de recebimento: R$ 2.300
  • (=) Lucro líquido: R$ 3.200

O que essa DRE está dizendo

A empresa faturou R$ 120 mil e ficou com R$ 3.200, ou seja, 2,7% do faturamento. É o retrato clássico de quem trabalha muito e sobra pouco.

Olhando linha a linha, dá para ver onde agir. O custo dos serviços consome 64% da receita líquida. As despesas operacionais consomem outros 31%. Qualquer vazamento pequeno em uma dessas linhas come todo o resultado.

Agora imagine duas melhorias operacionais, sem mexer no preço:

1. Reduzir o deslocamento em 20% organizando melhor a rota e agrupando atendimentos por região: economia de R$ 1.500.

2. Reduzir em 5% o custo de mão de obra desperdiçada com retorno por serviço malfeito e tempo parado: economia de R$ 2.100.

O lucro sai de R$ 3.200 para R$ 6.800. Mais que dobra, sem vender um real a mais. É isso que a DRE mostra e que o extrato bancário esconde.

Como montar a sua DRE na prática?

1. Escolha o período e mantenha o padrão: Mensal é o ideal para empresa de serviços. Feche sempre no mesmo dia e compare mês a mês. Uma DRE isolada diz pouco; a sequência de seis meses diz muito.

2. Separe as contas da empresa das contas pessoais: Sem isso, nada do que vem depois funciona. Gasto pessoal pago pela conta da empresa distorce a DRE e esconde o lucro real. Pró-labore é o caminho correto para remunerar o sócio pelo trabalho, e distribuição de lucro não entra como despesa.

3. Classifique cada gasto em custo ou despesa: A regra prática: se o gasto só existe porque o serviço foi executado, é custo do serviço. Se ele existiria mesmo com a equipe parada, é despesa operacional. Combustível da equipe de campo é custo. Aluguel do escritório é despesa.

4. Registre a receita por competência: Lance o faturamento no mês em que o serviço foi executado, não no mês em que o cliente pagou. Em contratos mensais, isso é simples. Em serviços avulsos, a data de conclusão da ordem de serviço é a referência mais segura.

5. Calcule os percentuais, não só os valores: Cada linha dividida pela receita líquida vira um indicador. Custo de mão de obra sobre receita, deslocamento sobre receita, despesas administrativas sobre receita. São esses percentuais que mostram se a empresa está melhorando ou piorando, mesmo quando o faturamento oscila.

Erros que tornam a DRE inútil

  • Misturar caixa e competência no mesmo relatório, lançando receitas quando recebe e custos quando executa.
  • Esquecer os encargos e lançar só o salário líquido da equipe de campo.
  • Deixar o pró-labore de fora, o que faz o lucro parecer maior do que é e esconde que o dono está trabalhando de graça.
  • Jogar tudo em "outros", criando uma linha genérica que cresce todo mês e ninguém sabe o que é.
  • Não olhar o resultado por tipo de serviço ou por cliente. A DRE geral pode estar positiva enquanto um contrato específico dá prejuízo todo mês. Para isso, vale conferir o guia sobre como calcular o lucro por atendimento (https://operixbrasil.com.br/blog/como-calcular-lucro-por-atendimento).

A DRE e a reforma tributária: por que olhar agora

Setembro de 2026 tem um prazo que conversa diretamente com a DRE. Pela Resolução CGSN nº 186/2026, empresas do Simples Nacional precisam decidir entre 1º e 30 de setembro de 2026 se vão recolher o IBS e a CBS dentro da guia do Simples ou pelo regime regular, por fora, com validade para o primeiro semestre de 2027. Quem não fizer a opção continua com os dois tributos dentro da guia única, e haverá nova oportunidade em março de 2027, com efeito no segundo semestre (Portal do Simples Nacional: https://www8.receita.fazenda.gov.br/simplesnacional/noticias/NoticiaCompleta.aspx?id=c739e03c-8482-473f-8e82-f38ec3b13637).

Essa escolha depende de quem são os seus clientes, do peso dos insumos no custo e da margem, e não tem resposta pronta. O que dá para afirmar é que sem uma DRE confiável a decisão vira palpite. Leve os números para o contador antes de decidir.

Próximo passo

A DRE só é tão boa quanto os dados que chegam nela. Quando custo de material, deslocamento e horas da equipe ficam registrados em cada ordem de serviço, fechar o mês deixa de ser um trabalho de garimpo. Na Operix, o financeiro fica ligado às ordens de serviço, com receita e custo acompanhando cada atendimento. Teste grátis em https://operixbrasil.com.br/criar-conta e conheça o software de ordem de serviço (https://operixbrasil.com.br/software-ordem-de-servico).

Perguntas frequentes

O que é DRE simples?

É uma versão enxuta da Demonstração do Resultado do Exercício, com as linhas essenciais para o dono acompanhar a saúde do negócio: receita, deduções, custo dos serviços, despesas operacionais, resultado financeiro e lucro líquido. Não substitui a DRE contábil oficial, mas é suficiente para gestão mensal.

Qual a diferença entre DRE e fluxo de caixa?

A DRE usa o regime de competência e mostra se a empresa dá lucro. O fluxo de caixa usa o regime de caixa e mostra se vai ter dinheiro na conta para pagar as contas. Uma empresa lucrativa pode quebrar por falta de caixa, e por isso os dois relatórios precisam andar juntos.

MEI precisa fazer DRE?

O MEI não é obrigado a elaborar DRE, mas pode usar a versão simples como ferramenta de gestão. Ela ajuda a saber se o preço cobrado cobre os custos e quanto de fato sobra no fim do mês.

Pró-labore entra na DRE?

Sim, como despesa operacional. O pró-labore é a remuneração do sócio pelo trabalho na empresa. Já a distribuição de lucros não é despesa, é destinação do resultado depois que ele foi apurado.

Qual margem líquida é considerada boa para empresa de serviços?

Não existe um número único, porque varia muito por segmento, porte e modelo de contrato. Mais útil do que comparar com uma média de mercado é acompanhar a sua própria margem mês a mês e entender o que fez ela subir ou cair.

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